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02 junho 2012

A LENDA DOS CASTELOS - Parte I

Castelo Melhor


Quando de lá saí, em finais de Setembro de 1952, não havia água canalizada, nem electricidade, nem telefone, nem estradas, nem um único doutor ou engenheiro, nem sequer as gravuras que, segundo me garantem e eu acredito, já para ali estavam há mais de trinta mil anos! É muito ano! E sempre tão disfarçadas que nunca se denunciaram; até que um dia... Lá voltaremos.

Mas havia o castelo, a igreja, duas escolas primárias - hoje do primeiro ciclo - uma para os rapazes e outra para as raparigas, nada de misturas; havia também umas largas centenas de pessoas, perto de mil, ufanas da sua terra, a maior parte delas; todas não, como é costume, mas as que o eram tinham por lema dizerem-se de “Castelo Melhor, dos pimpões”, expressão que vinha de um velha quadra popular na zona, que rezava assim:

«Muxagata das tomatas
Vila Nova dos ladrões
Almendra dos urtigões
Castelo Melhor dos pimpões»


Poderíamos tentar encontrar uma explicação para aquela vaidade toda, mas tal como está é que me parece bem. Assim, há que não mexer.

Havia muitas fragas e terra, pouca, mas ia dando, desigualmente como é hábito, para todos viverem, mal quase sempre, sem assistência médica ou outra, a não ser o doutor Caldeira, que morava em Almendra, a tal dos urtigões, e que uma vez por semana ia a Castelo Melhor, onde nasci e vivi até aquele Setembro distante.

Como disse lá atrás tinha um castelo e tem-no ainda e como já vimos não se trata de um castelo qualquer, mas o Castelo Melhor!


Castelo de Castelo Melhor
Desengane-se quem acidentalmente, possa ler este apontamento e não conhecer o castelo; é uma muralha, construída em torno da crista de uma colina e todo o seu miolo é um aglomerado de xisto, que sobressai bastante acima da muralha ou do que dela resta.

O qualificativo de “Melhor” tem a ver, como quase sempre sucede, com uma lenda que lhe está subjacente e que, em traços largos, é mais ou menos assim:

Na tribo de origem dos meus longínquos antepassados, habitantes de um outro castelo – o Calabre – que nunca soube exactamente onde ficaria e que também tem a sua lenda, e se lendas são não se lhes deve tocar para que se mantenham como tal e mantenham a natural beleza da lenda.

Deve ter sucedido algo de anormal, lá para o Calabre, se calhar desentendimentos sobre chefia ou governação má ou então, o que não seria de todo impossível um conflito de gerações, como hoje se vai chamando quando uns querem só os direitos e outros não querem só os deveres; o que é certo, é que o grupo se cindiu, e uns quantos, à falta de outros argumentos melhores, decidiu separar-se e no acto de despedida, em jeito de ameaça e também desafio, prometeu, aos que ficavam que ainda iriam ter um castelo melhor.

Eu estou convencido, mesmo que não conste da lenda e muito menos da estória, que o grupo dissidente já devia ter andado por aquelas paragens, nos seus passeios a pé ou montados nalgum animal que já tivessem por sua conta e domesticado ou durante as caçadas, que por certo fariam; e deviam ter já reparado que havia para aqueles lados, bons locais para fazerem um castelo ou outra estrutura defensiva; lá está, defensiva, é por que algo temiam. Vamos em busca do que temeriam. 

E agora, sem querer interferir nas voltas que a vida daquela gente terá dado, acho que outra lenda, se lhes atravessou no caminho, antes de definitivamente se decidirem por aquele local da fortificação.

Estou a imaginá-los a olharem em volta, vindos dos lados do Rio Douro, que não sei se já se chamaria assim, mas tudo leva a crer que já por ali corria, há milhares ou milhões de anos, com algumas alterações que a natureza foi por certo introduzindo, mas quando digo milhares ou milhões de anos é porque já há muito chovia, muito nalguns períodos e nada noutros, como hoje sucede.

Dizia que, vindos do lado do Douro e quando chegaram ao Alto de Santa Bárbara, que não podia ter esse nome, nem outro, e muito menos teria a capela, devem ter visto, logo no primeiro plano, à direita, a serra, sem nome como hoje, só serra, que ia crescendo em declive irregular vinda dos lados do Rio Côa e do lugar onde se junta ao Douro, acabando num penhasco de xisto de onde se via tudo em redor.

O citado rio Côa, tal como o Douro, não sei se teria já esse nome, mas que por ali já corria há milhares de anos não pode haver dúvida, ou então as tais gravuras não podem ter trinta mil anos, já que é nos penedos que estão junto à margem que os riscos foram feitos, não sei por quem, e se soubesse não dizia, pois não só não tenho feitio de denunciante e muito menos tratando-se de conterrâneos meus.




Terão visto também, lá mais ao fundo, a colina, bem mais pequena na altitude, mas mais equilibrada para fazerem um castelo; parecia um requeijão quando vista de mais perto.

Embora aquela ponta da serra fosse o que mais lhes agradara e melhor servia para organizar a defesa ou dos escassos meios tirar proveito, pois bastaria largar uns calhaus em direcção às hordas assaltantes e que, com a velocidade vertiginosa que, de certo, adquiririam, levariam tudo à frente, como bem me lembro das “galgas” a descer a Cabreira, ou os Cascalhais, a saltarem como loucas, por cima de árvores e outras rochas, partindo pelo caminho tudo o que à frente se lhes atravessasse, só parando quando se desfaziam em pedaços pelo caminho ou então quando atingiam os leitos dos rios, Douro ou Côa, conforme se tratasse da Cabreira ou dos Cascalhais.

Aquela ponta da serra era a mais indicada à primeira vista, como já disse, por ser sobranceira a todas as outras a vários quilómetros em redor, mas teve de ser rejeitada por dois motivos, ambos de inegável valia a ter em conta: o primeiro era de natureza estratégica, por não ser fácil defender com vantagem o lado virado à foz do Côa, do lado do Orgal, só citado para melhor orientação, pois o lugar não existia na época em que nos reportamos, assim como os que atacassem do oeste por a serra quase não ter declive durante muitas centenas de metros; podiam colocar sentinelas, mas gente com essas características não devia fazer parte dos planos, até porque o grupo dos dissidentes não era muito numeroso e funcionava melhor quando em ataque agrupado.




O outro motivo, de natureza divina, bem mais complicado que o estratégico, como se veio mais tarde a comprovar, é que foi na ponta do rochedo que, em tempos não datados, mas que teria a ver com a distribuição dos espaços entre as forças celestiais, o Anjo Gabriel, embaixador do Céu, desceu e dali contemplou a beleza e também a pobreza de toda a imensidão envolvente; e tão necessária achou a sua definitiva guarda, que decidiu que ali devia ser erguida uma sua morada. E embora estivesse distante o tempo que mediava entre a construção do castelo e a morada para o Anjo, a verdade, salvo seja, é que os mediadores acharam que deviam ceder à vontade divina, não só por ter direitos adquiridos e que naquele tempo eram bem mais respeitados do que o são agora, mas também porque não iam desencadear uma guerra entre o Céu e a Terra, tanto mais que foi para evitar uma guerra entre família que deixaram o Calabre há já uns dias; a dormirem ao relento, mal alimentados e cansados. Em suma, nada de guerras e mãos ao trabalho, ficando assim assente, que o castelo iria ser construído lá em baixo, na colina que parecia um requeijão, não sei se haveria tal iguaria naquele tempo, mas se não havia, não souberam nem saberão o que perderam. 


Texto: Reis Caçote

1 comentários:

Excelente viagem no tempo. Fico à espera da próxima.
Adriano Ferreira

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