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13 abril 2012

A história da estação de Castelo Melhor




Resumo histórico do troço Pocinho – Barca D’Alva
Em 1878 o governo determina ao diretor da construção dos Caminhos de Ferro do Minho e Douro, para que procedesse urgentemente aos estudos entre a foz do Pinhão à Barca D’Alva, com vista à posterior elaboração do planeamento financeiro da obra.

Em 1880 as cortes gerais aprovam o prolongamento da linha férrea do Douro do Pinhão à Barca D’Alva autorizando o entroncamento desta com a linha férrea de Salamanca ao Douro.

O governo através do decreto de 23 de Junho de 1880 autorizou a construção do prolongamento da Linha do Douro até à Barca D’Alva.

O comboio chegou ao Pocinho a 10 de Janeiro de 1887.

Quatro meses depois, a 5 de Maio de 1887, avança até ao Côa.

Finalmente, a 7 de Dezembro de 1887, o comboio chega à Barca D’Alva. A construção deste caminho-de-ferro incluiu o percurso entre Salamanca e Barca D’Alva que foi inaugurado no mesmo dia. Nesse dia houve 4 inaugurações: 1 – Côa  - Barca D’Alva; 2 – Lumbrales – Barca D’Alva; 3 – Porto – Salamanca; 4 – Ponte internacional.

A questão da OLGA
Em 1888 o clérigo Lucas José Nunes (abade de Leça da Palmeira), provavelmente natural de Castelo Melhor, publica vários artigos em defesa acérrima da construção de uma estação na foz do ribeiro das Pariças em contraponto ao que considerou ter sido um erro a construção das estações do Côa e da Olga (Almendra). Argumentava o abade que o sítio das Pariças era o mais natural para a implantação de uma estação dado que no local havia uma travessia no Douro entre as terras da Beira e Trás-os-Montes, com barca de passagem, assim como um cais, onde os rabelos carregavam e descarregavam. A esse porto acediam os povos de ambas as margens através de caminhos para tal fim existentes, localizando-se a meio caminho entre as desembocaduras do rio Côa e da ribeira de Aguiar. Considerava por isso que era o melhor local entre o Pocinho e Barca D’Alva.

Dizia-se que a escolha dos locais para a implantação das estações do Côa e da Olga (Almendra) tivera a ver com o facto, no caso do Côa, de ali chegar a estar projectada uma ligação da Linha do Douro à Linha da Beira Alta, pelos vales do Côa e da ribeira de Maçoeime que iria entroncar em Vila Franca das Naves.
Facto curioso nesta história, é saber que essa ideia do ramal do Douro para Sul, na zona do Côa, permaneceu para além da decisão de avançar com os carris até à Barca D’Alva.

O argumento para a construção da estação da Olga (Almendra) parece ter sido o seguinte: se temos de construir uma estação na foz do Côa (tão próxima do Pocinho e tão distante da Barca D’Alva), então encontre-se um local intermédio entre esta e a de Barca D’Alva, para erguer outra, negligenciando-se, como se disse, o porto das Pariças.

Parece no entanto ter existido outra razão para a construção da estação da Olga. Esta terá tido a ver com o favorecimento de um Visconde (ou seus herdeiros) que tinha uma quinta na Olga e um Solar em Almendra e que reclamava, agora que a estação da Olga estava construída, a construção de uma estrada municipal que ligasse Almendra (o seu Solar) ao caminho-de-ferro (à sua quinta). A propósito disto dizia o abade: “A colocação da estação na Olga, devida à influência dos donos da quinta, foi uma fraude, um crime de corrupção, mas a estrada para ali é o sufrágio dessa fraude.”

Ainda antes, em 1883, já as freguesias de ambas as margens do Douro haviam manifestado a sua oposição ao projecto das estações entre o Pocinho e Barca D’Alva reclamando também a estação nas Pariças. O certo é que esta contestação não demoveu o governo e o projecto foi mesmo executado.
Mas o abade não se dá por vencido e em 1888 volta à carga dirigindo-se desta vez ao Ministro das obras públicas ao qual diz: “Sacrificar assim três povoações às conveniências de uma quinta, por mais esplendida que ela fosse, é um escândalo intolerável, e que só pode reparar-se com a colocação de uma estação nas Pariças ou então com a redução das três povoações a um campo onde os herdeiros ricos plantem vinha. Escolha o Sr. Ministro, mas pelo amor de Deus, faça cessar o escândalo.”

Ainda em 1888, sem dar tréguas na luta empreendida, a propósito da estrada para a estação da Olga (Almendra) e a reclamada estação nas Pariças, o abade considera que a estação da Olga é um beco sem saída e um facto triplamente injusto e criminoso porque deixava os povos mais próximos privados do uso do caminho-de-ferro, porque tinha obrigado o estado a construir e manter duas estações anémicas em lugar em uma vigorosa e, para cúmulo, ainda se queria obrigar o município a abrir uma estrada para a tal quinta, quando o que devia ser feito era construir uma estação ou apeadeiro nas Pariças, onde o transporte fluvial continuava a concorrer com o ferroviário em virtude da distância das duas estações (Côa e Olga). Terminava o abade o seu apaixonado discurso dizendo: “Aquela estação da Olga e a sua estrada são duas peças da mesma fábrica, e completam-se mutuamente. A estação é o poste, a estrada é a corda para dele pendurar e estrangular nove ou dez povoações!”

A argumentação foi tanta e tão persistente que o resultado adveio com a construção da almejada estação, não junto à foz do ribeiro das Pariças, mas um pouco mais a montante, na foz da ribeira de Aguiar. Esta conquista não deixa de ter um sabor agridoce pois sendo certo que a estação foi construída esta acabou por ficar privada de uma estrada de acesso facto que é interpretado pelos historiadores como uma forma de castigo pela insolência do abade.

Fonte: COAVISÃO Nº 13, 2011

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